domingo, 9 de outubro de 2011

Esperando #2

Quando eu era pequeno gostava de admirar meus pais juntos. Era como se fossem sempre namorados, como se tivessem acabado de se conhecer. Ele sempre achava um jeito de demonstrar seu amor por ela. Era muito carinho, muito afeto, muito amor. Um amor que não existe mais hoje. Eles sempre andavam de mãos dadas. Ele também gostava de fazer serestas pra ela. É, é verdade. Ela ficava com um brilho no olhar. Devia se sentir a mulher mais feliz do mundo. E ela... ah, ela adorava cozinhar pra ele... Fazia sempre uma coisa diferente pra ele, alguma comida gostosa, daquelas que a gente come no domingo, com a família toda na mesa. (pausa) Você é advogada? Mesmo? Meu pai sempre quis que eu fosse advogado. Mas, eu fiz faculdade de economia. Odiei. Trabalho num banco. No Centro. Os seus olhos parecem com os dele. Meu pai morreu quando eu tinha 11 anos. Infarte. Tudo bem, não precisa se desculpar. Ele não valia nada mesmo. Um tremendo filho da puta. Desculpa a expressão. Mas ele era mesmo. Um tremendo filho da puta. Batia na minha mãe. Batia na minha mãe e tinha um caso com a minha tia. Não, com a irmã dela, não, com a irmã dele. Tinha um caso com a irmã dele. Bebia. Bebia muito. Um dia ele chegou em casa e deu uma surra na minha mãe. Eu vi tudo. Ele não percebeu que eu tava vendo. Achou que eu tava dormindo. Depois que ele cansou de bater na minha mãe, foi tomar um banho. Deve ter sido pra dar uma relaxada. Enquanto ele tomava banho, peguei veneno de rato na garagem e misturei na comida dele que tava guardada no forno. Fiquei olhando tudo escondido. Ele comeu a comida toda. Devia estar com fome. Quando terminou e foi levantar, caiu no chão e ficou se contorcendo. Minha mãe encontrou ele morto no dia seguinte, no chão da cozinha. Os médicos disseram que foi infarte. Sabe como é, né?, pobre em hospital público...

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