domingo, 23 de outubro de 2011

O menino e a menina trancados no quarto

ELA: Porque quando você me tocou, foi como se o chão saísse debaixo dos meus pés. É, eu sei que é clichê, mas.
ELE: Eu nunca tinha percebido que as paredes do seu quarto se moviam. E de repente, ele era grande. O seu quarto era imenso. E havia flores e havia sol e havia som. E alguém cantava uma canção.
ELA: E eu pensava que tava caindo, mas não caía. E não era o chão que saía debaixo de mim. Era eu que voava. E eu pensava que não. Que não, que eu não queria amar.
ELE: E nessa canção havia cordas e havia sopros e havia metais e havia percussão e havia todas as coisas. Porque era todas as coisas.
ELA: E quanto mais eu pensava que não queria amar, mais eu pensava que tava amando. Que era tarde demais. Ou cedo demais.
ELE: E as flores se despetalavam ao som daquela canção. E as pétalas caíam sobre mim. E as pétalas caíam a minha frente e eu caminhava pelo infinito sobre as pétalas das flores do teu quarto.
ELA: E eu pensava que não. E eu queria que não. Que não fosse. Como pode uma menina se apaixonar por um menino? Que futuro tem isso?
ELE: Não há futuro pras flores nem pro sol nem pras canções.
ELA: Não há nada nem nunca houve. Mas havia. E havia tudo. E havia tudo ao mesmo tempo.
ELE: E o sol refletia no fundo da sua retina, ainda que as cortinas estivessem fechadas. E as cortinas, de repente, pareciam velas de um barco. De um barco onde eu navegava. Onde navegávamos. Eu e você.
ELA: E eu tinha medo, porque sempre odiei barcos. E sempre odiei o sol e sempre odiei o vento. Mas que futuro pode ter isso, meu Deus?
ELE: E tudo era tão de repente, que, de repente, alguém do barco gritou que havia terra à vista. E todos queriam nadar, mas também queriam morrer na praia.
ELA: E o despertador tocava e o cachorro latia e vovô trazia doce de leite do sítio e era gol do Flamengo e o Brasil ganhava a Copa do Mundo e era São João e era todas as coisas e era todas as coisas ao mesmo tempo.

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